Imaginem
a vida dura do campo em que as pessoas começam o trabalho às 5 horas da
madrugada para tratar dos animais, depois cuidar da casa, fazer comida, ainda
fazer artesanato, cuidar do marido, filhos e netos. Somente esta rotina já é
desgastante, mas não para as pessoas do Assentamento São Francisco, a 37
quilômetros de Rondonópolis, que trocaram a sesta, tradicional dormida depois
do almoço, por aulas na escola, do programa de Educação de Jovens e Adultos
(EJA) do município.
A sala multisseriada
possui 13 alunos do 1º e 2º segmento. Se eles se sentem cansados??? Ledo
engano, dizem que é na escola que descansam e fazem planos para uma faculdade.
Cada aluno adaptou a rotina para estar pronto para ir de ônibus à sala anexa da
Escola Municipal do Campo Padre Dionísio Kuduavizcz, na Cascata, das 13 às 16
horas, todas as tardes de segunda a sexta. As salas da EJA que tradicionalmente
funcionam à noite foram para o vespertino para se adequar aos alunos.
Arisdet Moreira de
Souza, 49 anos, casada e vó, acorda cedo todos os dias. Às 5 horas já deve
estar no curral para tirar leite de oito vacas. Depois ela mesma carrega do
galão de 40 litros para o ponto onde o leiteiro pegará para a venda. Depois é
hora de dar ração para as vacas e os bezerros e alimentar os porcos e as
galinhas. Finalizada a lida dos animais é hora dos serviços domésticos, limpar
a casa e fazer o almoço. Almoço e vou correndo me organizar para vir para a
escola. Aqui é muito bom, fazemos amigos e aprendemos mais.
Ela conta que ao chegar
em casa precisa cuidar do netinho que mora com ela e o marido. No final da
tarde faz a janta, verifica se está tudo certinho com os animais e casa e
somente depois vai dormir. A felicidade está estampada no rosto quando enxerga
no futuro a possibilidade de fazer uma faculdade. Arisdet frequentou a escola
até a 5ª série do antigo Ginásio e garante: cansada que nada, enquanto tiver
aula aqui vou estudando e depois se tiver transporte vou fazer faculdade na
cidade.
Com 58 anos, a colega Inês
Gonçalves dos Anjos, esposa e avó, frequenta o 2º segmento da EJA. Com
problemas na coluna, ela cuida da casa, do marido e ainda faz crochê e cuida
dos netos, um de 9 anos e outro de 8 meses. Sempre quis estudar, mas era
difícil porque não tinha transporte nem escola para nós. Agora está ótimo,
temos o ônibus para nos trazer e ficamos a tarde toda aqui, aprendendo.
Adoramos vir para a escola, explica Inês, que vaidosa não esconde a alegria de
voltar a estudar.
As salas de EJA no
assentamento começaram a funcionar no início deste ano para atender aos
moradores do campo que desejavam continuar os estudos. O coordenador
pedagógico, Rommel Weigert lembra que todos acompanham muito bem as aulas e a
aprendizagem está dentro da meta pré-estabelecida. O diferencial é que eles
estão aqui porque eles querem. Então tudo é bom.
Em Rondonópolis, a EJA
atende 140 alunos distribuídos em salas de cinco escolas do campo, destas
somente a do Assentamento São Francisco funciona à tarde.