Desenhos,
nomes de familiares, frases e até mesmo versos compõem a obra colcha de
retalhos dos detentos alunos do 1º e 2º Segmentos da Educação de Jovens e
Adultos (EJA). O trabalho que já andou o estado atrai pela beleza e
criatividade do grupo que deixou fluir sentimentos e esperanças, e contribuiu
com a socialização de todos os detentos que estudam na Penitenciária da Mata
Grande.
A ideia de uma colcha de
retalhos em que cada um que queira contribui expondo sentimentos através de
desenhos ou textos surgiu da iniciativa das professoras Creuza Rosa Ribeiro e
Carmen Lúcia Giuntini quando viram uma colcha feita por alunos em outra escola.
O que diferenciou o projeto na
unidade prisional foi a proposta de tema livre: os alunos poderiam se expressar
sobre o assunto que quisessem. O resultado foi uma obra com traços e
sentimentos únicos, várias identidades e reflexos de vidas numa só história, a
colcha. Cada pedaço de pano foi alinhavado pelo próprio detento sobre a base
costurada pela professora.
Como a proposta era trabalhar
com sentimentos, levamos músicas e literatura a respeito da colcha de retalhos
e propusemos que cada um trabalhasse da forma que quisesse, com a possibilidade
de expor para todos o que a colcha significava na sua vida. Para Creuza, o
resultado foi mais que um trabalho escolar, foi a forma de valorizar cada
aluno, explicando que todos têm valor e são iguais no espaço escolar,
independente de passado ou problemas internos. Mais que exteriorizar
sentimentos, iniciativa ocasionou maior socialização entre os alunos e aumentou
a estima de quem vive encarcerado.
Não tem preço, nem existe
adjetivo para expressar o sentimento de uma professora quando vê o aluno de 60
anos, que é detento, ser alfabetizado e poder escrever o próprio nome na hora
em que vai ser solto. Na escola é assim, pegamos na mão e ensinamos, assegurou
Creuza. Se muitos que passam pela escola mudam? Sim, garante a professora que
assiste contente aos ex-alunos frequentarem hoje cursos de faculdade. Tem
aluno que hoje faz Zootecnia e muitos que fazem Direito, foram ressocializados
e continuam estudando. A escola é a ferramenta de humanizar. É também uma
perspectiva de futuro para quem está preso e uma forma de socialização.
A colcha que conta a vida, as
esperanças e anseios foi mostrada nesta semana na Secretaria Municipal de
Educação como trabalho conjunto entre município e Estado, já que, os dois
trabalham com educação na penitenciária. Atualmente, cerca de 230 detentos da
Mata Grande e Cadeia Pública Feminina frequentam as aulas de EJA. Para cada 12
horas de aula há a redução de um dia de pena para os detentos.